Amor compreendido
Notícia publicada por Assessoria de Imprensa em 21/11/2019 20:57

                                                                        O casal Cristhiano Santos e Jaqueline Muniz

 

- Agora, nunca mais ninguém vai me perguntar: ‘E aí, vai casar quando?’.

O desabafo, em tom de alegria, deu o tom da felicidade do bancário Cristhiano dos Santos, de 44 anos, em 18 de maio deste ano. Ele foi um dos muitos surdos que aproveitaram a oportunidade proporcionada pela chegada do ônibus do Programa Justiça Itinerante no pátio do Instituto Nacional de Educação de Surdos (INES), em Laranjeiras, zona sul do Rio, para realizar sonhos ou resolver pendências. No caso de Cristhiano, foi a primeira opção: ele se casou com Jaqueline de Araújo Muniz.

Os noivos já viviam juntos há 15 anos e a formalização da união era desejo antigo. Ao dizer sim, o casal deixou para trás as dificuldades burocráticas e financeiras em torno da oficialização do laço prá lá de significativo. E, alegria maior: o matrimônio acabou celebrado no lugar que Jaqueline sempre considerou especial.

- Estava esperando o momento certo. É a realização de um sonho porque o INES é o lugar dos surdos, a nossa casa.

O casamento entre Jaqueline e Cristhiano foi formalizado pelo juiz Marco Antônio Azevedo Júnior, da 12ª Vara de Fazenda Pública. Para ele, a passagem do ônibus do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJRJ) pelo INES representa mais uma parcela da população alcançada pelo Judiciário fluminense.

- Eles são sempre colocados à margem de um sistema e cabe a nós, justamente, trazê-los para dentro dele. Estamos indo direto ao contato com as pessoas, dando para elas o que precisam; vendo na prática como é surtir o efeito de tudo aquilo pelo qual a gente luta, abrindo cada vez mais o leque. O Justiça Itinerante propicia o contato do juiz que está sempre dentro de gabinete vendo só processo, só folha, com a vida real. Proporciona que se mexa com a vida de pessoas que realmente precisam desse acesso à Justiça.

O casamento inédito chamou a atenção da equipe da TV INES, a primeira webTV em Língua Brasileira de Sinais (Libras). A repórter-apresentadora Aline Campos acompanhou a cerimônia e atuou como intérprete. O também jornalista Áulio Ribeiro ressaltou a importância de divulgar para a comunidade surda a iniciativa.

- Antigamente não tinha isso para a gente, é a primeira vez que vejo essa prestação de serviços e estamos fazendo questão de registrar a reação das pessoas.

E não era muito difícil encontrar, naquele dia, quem finalmente tinha conseguido resolver problemas simples, mas que para os surdos, pareciam impossíveis de solucionar. A costureira Ivone Fonseca procurou a unidade para tirar a segunda via da carteira de identidade – e se disse admirada com o que encontrou.

- Tentei várias vezes, mas não tinha conseguido por causa da falta de comunicação, pois não encontrava intérprete. Eu me sentia impotente porque encontramos barreiras e várias dúvidas, sem informações.

A atuação de intérpretes voluntários ajudava na interpretação das demandas. Jéssica de Freitas foi uma delas. Ela aprendeu Libras por curiosidade e acabou seguindo a profissão. Os dados mais recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que atualmente 9,5 milhões de brasileiros são portadores de deficiência auditiva (5% da população).

- Tanto o surdo como nós, chamados ouvintes, somos iguais independentemente da deficiência. Essa ação é um meio de mostrar que eles estão sendo vistos – afirmou Jéssica.

                                   "Isso é um estímulo para que outros surdos procurem seus direitos e acreditem na Justiça" 

                                                                          Jaqueline de Araújo Muniz

 

Percepção e determinação

E dizer que tudo começou graças à insistência de uma técnica-judiciária que viu nos corredores do TJRJ a dificuldade da comunidade surda em se comunicar. Isabel Viegas estudou no INES para agregar conhecimento e percebeu rápido que poderia ser útil.

- Há vários surdos trabalhando no setor de limpeza do Tribunal e eu percebia ninguém sabia se comunicar com eles. Quando comentei com meus colegas que tinha feito o curso do INES começamos a pensar juntos de que forma poderíamos ajudar essa parcela da população.

Para Tulio Medeiros, que atua na coordenação de aperfeiçoamento e encaminhamento profissional do INES, a ida do Justiça Itinerante à instituição reforça o caráter de atuação permanente na sociedade.

- A procura nos surpreendeu e no meio do evento já tinha gente perguntando quando seria o próximo.

A participação do TJRJ também aconteceu por meio de uma palestra sobre violência doméstica ministrada pela juíza Luciana Fiala de Siqueira Carvalho, titular do 5º Juizado de Violência Doméstica e Familiar Contra a Mulher, integrante da Coordenadoria da Mulher em Situação de Violência Doméstica e Familiar (COEM) e do Grupo de Trabalho sobre feminicídio.

- Tudo é mais difícil para quem tem deficiência. A gente tem que criar meios de acessibilidade à Justiça no que for necessário para que essas mulheres tenham acesso aos juizados, às medidas protetivas e à efetividade da Lei Maria da Penha.

Do tempo do Império

Reza a lenda de que o INES surgiu por conta de uma história familiar no Império brasileiro. O genro de D. Pedro II, o príncipe Luis Gastão de Orléans (o Conde d’Eu), marido de Princesa Isabel, seria parcialmente surdo. Foi quando um professor francês, que também não escutava, foi convidado para fundar uma escola direcionada para esse público.

Em 1857, Ernest Huet fundava o então Imperial Instituto de Surdos-Mudos, que cem anos depois passou a se chamar Instituto Nacional de Educação de Surdos. Hoje, são 600 alunos, da Educação Infantil ao Ensino Médio. E o local que nunca mais vai sair da memória do casal Jaqueline e Cristhiano:

- Quando a gente soube da iniciativa, veio logo para pegar nossa vaga e casar, sem ficar enrolando. Estou me sentindo salvo – disse Cristhiano.

- Isso é um estímulo para que outros surdos procurem os seus direitos e acreditem na Justiça – conclui Jaqueline.

 

SV/FS

Fotos: Brunno Dantas/ TJRJ